ESART e EST criam software para modernizar bordado de Castelo Branco

José Silva e Fernando Barbosa na apresentação da plataforma
(foto: ZIP TV/emissão)
"Começámos por fazer uma avaliação das acções que tinham de ser incorporadas no software", esclarece José Silva, um dos orientadores do projecto. De acordo com aquele docente da ESART, a plataforma gráfica deveria permitir realizar de forma digital tarefas relacionadas com o bordado de Castelo Branco como o desenho, a sua selecção, e a passagem deste para uma superfície como um tecido. Após cada uma das cinco fases de avaliação da interface foi realizado um inquérito no local de trabalho das bordadeiras, partindo-se depois para uma abordagem mais próxima junto de cada uma delas. Tudo para que os responsáveis pela criação do software tivessem uma percepção mais real da opinião destas. Descobriu-se então que as bordadeiras, acostumadas a recorrer unicamente às mãos, tinham alguma dificuldade em lidar com uma aplicação informática. "Elas estão habituadas a desempenhar acções em que existe um grande contacto sensitivo com os materiais. E esta passagem para uma realidade digital causa-lhes grandes dificuldades", acrescenta José Silva. No entanto, também houve sinais positivos. Estas perceberam que a ferramenta informática lhes permitia não só fazer alterações e introduzir novos elementos, como também partilhar elementos entre si e propor a sua certificação. "A grande vantagem que elas identificam no processo seria a utilização de uma biblioteca para uma mais fácil duplicação dos documentos."
Criar uma plataforma acessível a toda a comunidade era precisamente um dos objectivos deste projecto. "A ideia é partilhar os elementos com todas bordadeiras que utilizam a aplicação, permitindo-lhes alterar os que já existem", refere Fernando Sérgio Barbosa, professor da EST que completa a equipa de trabalho. Uma maneira de democratizar o acesso aos elementos que integram o bordado, privilegiando no entanto o uso dos já certificados. "Se para vender um bordado é preciso ter o selo de certificação, elas já sabem que usando certos elementos terão grandes probabilidades de o obter."
De forma a facilitar a utilização desta ferramenta, evitou-se o recurso a demasiadas formas. "Retirámos tudo o que é redundante noutras aplicações genéricas de desenho, e especificámos funções como o preenchimento com o ponto do bordado", adianta Fernando Barbosa. No entanto, quem conheça aplicações similares terá facilidade em adaptar-se. "Não utilizámos nada de diferente. O interface está construído de forma a que o conhecimento seja intuitivo e a aprendizagem rápida." O utilizador dispõe de uma interface gráfica onde pode desenhar formas elementares como linhas rectas, elipses e outros desenhos, definir cores e fazer o preenchimento do bordado. Mas as funcionalidades vão para além do mero desenho e da impressão. "Uma pessoa pode importar novos elementos ou pegar no elemento em que está a trabalhar e inclui-lo na biblioteca", esclarece o professor da EST. No entanto, “o mais normal será pegar nos elementos já existentes e compor o bordado até chegar ao resultado final."
A aplicação, que também teve em conta a adaptabilidade no futuro, vai funcionar em modo offline, possuindo uma parte online para as actualizações automáticas da biblioteca. "Sempre que uma pessoa ligar a aplicação, ela vai contactar com um site pré-definido para verificar se foram inseridos novos elementos", explica Fernando Barbosa. Para além de possibilitar a actualização da base de dados com a descarga de novos elementos do bordado disponibilizados por outros utilizadores e entretanto certificados, esta vai permitir também que as bordadeiras peçam a certificação dos elementos criados por si. O protótipo do software Riscos foi desenvolvido para Windows usando C++ e linguagens de programação orientadas para objectos, bases de dados e computação gráfica. O Pathern Document View foi a plataforma escolhida para a aplicação, usando como extensões uma impressora plotter, um tablet pc e uma página na Internet, a qual deverá ser criada usando a tecnologia Java Server Pages (JSP).
O que é o projecto Ex-Líbris?

Revitalizar esta actividade tradicional é uma das prioridades
(imagem: ZIP TV/emissão)
A criação do software Riscos surge integrada no programa "Ex-Líbris – Requalificar/Adaptar/Certificar o Bordado de Castelo Branco", o qual visa reconverter esta arte artesanal, considerada o ex-líbris da cidade, associando-lhe processos de inovação. O projecto, financiado por fundos comunitários do programa europeu EQUAL, tem como parceiros nacionais a ADRACES – Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro-Sul, o Museu Francisco Tavares Proença Júnior, a Câmara Municipal de Castelo Branco e o Instituto Politécnico de Castelo Branco. Entre os objectivos propostos estão a fomação e requalificação dos activos profissionais, o desenvolvimento de normas para a certificação do bordado, a definição de estratégias que reconvertam a actividade e a criação de uma marca regional associada ao bordado, processo em que também deverá estar envolvida a ESART.
Reforçar a investigação científica sobre a história do bordado de Castelo Branco, fazendo o levantamento dos desenhos, matérias-primas e pontos antigos, é outra das prioridades. Pretende-se igualmente introduzir novas tecnologias no processo de produção, adequando o produto às tendências do mercado. Um pólo dinamizador do artesanato local, cuja imagem pode ajudar a reforçar outros produtos regionais. Até porque o bordado já não se confina à tradicional colcha, havendo cada vez mais propostas inovadoras de aplicação. São disso exemplo não só os motivos integrados nas cerâmicas da Vista Alegre, mas também os utilizados nos vestidos de noiva apresentados pela ADRACES no último desfile de moda da ESART.
Na conferência internacional "Contributos do Património Cultural para o Desenvolvimento dos Territórios", realizada a 15 de Setembro na EST, constatou-se precisamente a necessidade de colocar este património ao serviço do desenvolvimento local, e a falta de um plano de desenvolvimento que enquadre a actividade a médio e longo prazo. Para já, com a promulgação da lei 16/2006, resultante da proposta apresentada na Assembleia da República pela deputada albicastrense Hortense Martins, prevê-se a criação na cidade de um Centro para a Promoção e Valorização dos Bordados de Castelo Branco, entidade que deverá demarcar a área geográfica e certificar a autenticidade do produto, impedindo a sua adulteração e implementando acções de controle de qualidade. Entretanto, ainda não foram encontrados os parceiros necessários à criação da empresa municipal que se irá dedicar à produção, promoção e comercialização do bordado. Sinal interpretado pela própria ADRACES como falta de sensibilização e mobilização das entidades regionais para o projecto.
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(IMAGEM E EDIÇÃO: Jorge Costa)




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